Grandes produtoras e pequenos bureaus aproveitam o aumento da demanda pelos serviços de efeitos e composições de imagens
O2 inaugura novo prédio, construído sob medida para abrigar toda a sua estrutura de pós-produção
Duas tendências simultâneas em pontas opostas do setor têm transformado o cenário do mercado de pós-produção. De um lado, grandes produtoras aperfeiçoam equipamentos, ambientes e pessoas para finalizarem seus filmes “em casa”. De outro, profissionais com grande conhecimento técnico formam parcerias e abrem pequenos bureaus para oferecerem seus serviços.
Na terça-feira 14, a O2 inaugura oficialmente o novo prédio construído sob medida para abrigar toda a sua estrutura de pós-produção. Desde que passou a priorizar a especialização em tais serviços, há três anos, a produtora investiu mais de US$ 3,5 milhões e multiplicou por dez o faturamento na área. Com mil metros quadrados, o espaço tem paredes envidraçadas com cortinas automáticas, ar-condicionado inteligente, piso elevado para comportar todos os cabos necessários e móveis feitos na própria marcenaria da produtora com madeira reutilizada de cenários.
Atualmente, a capacidade é para até cem pessoas trabalharem ao mesmo tempo no ambiente. Há equipes distintas para rodoscopia, motion graphics, 3D Estéreo, 3D modelagem e um departamento de Nuke (software de composição de imagens). Também ficam no prédio um departamento de software e soluções para novas plataformas, tanto em games quanto em projetos interativos como o da ExpoXangai. “São os formatos do futuro, temos que estar bem preparados para isso”, diz Tamis Lustri, diretor de pós-produção da O2, que embora rode 80% de seus filmes publicitários com câmeras red acabam entregando o material em formato standard por opção das emissoras de televisão.
A performance dos equipamentos em funcionamento simultâneo requer tanta energia que foi preciso desenvolver uma operação particular em conjunto com a Eletropaulo – dois novos postes foram instalados na rua especificamente para darem conta do recado.
“Antes, a pós-produção era responsável por efeitos como os do filme Matrix, as pessoas esperavam por isso. Hoje, o legal é que os efeitos passem despercebidos”, compara Lustri. “É preciso programar a imagem antes de filmar a cena. O Daniel Filho é ótimo nisso. Ele usa a pós para facilitar a vida dele e de toda a produção”, afirma, citando o diretor com quem a O2 tem desenvolvido diversos trabalhos de pós-produção, tanto em séries quanto no cinema. Fazem parte desta lista o filme Chico Xavier e a série As Cariocas, da Rede Globo.
Para 2011, a produtora já tem dois grandes trabalhos com longas-metragens programados: Xingu, de Cao Hamburger, e 360, o novo filme de Fernando Meirelles, que já gera uma expectativa enorme na equipe.
Descentralização
Trabalhando há 12 anos com pós-produção, Luís Carone é um dos mais conceituados profissionais brasileiros da área. Com vídeos baseados em composição de imagens, já ganhou dois VMBs dirigindo clipes para as bandas Sepultura e Autoramas. Diretor de cena da ParanoidBR, há quatro meses ele abriu o seu próprio bureau de pós-produção, o Jonathan Post. Até o momento, a pequena estrutura comporta apenas os trabalhos publicitários da Paranoid BR e os assinados por Carone. O produtor diz que a descentralização na área começou a se acentuar nos últimos quatro anos, devido ao avanço tecnológico e barateamento de custos.
“As produtoras grandes fizeram as contas, acharam barato e começaram a montar estruturas dentro de seus espaços. Equipamentos, como um telecine, que antes custavam R$ 1 milhão agora tem máquinas respectivas em digital que saem por dez, vinte mil reais”, avalia Carone. “Agora, nessa segunda fase de mudanças, estão aparecendo pequenos bureaus, como o Jonathan Post. São pessoas como eu, que têm conhecimento técnico, mas sabem pouco do lado empresarial. Vamos ver se conseguem se manter nos próximos anos.”
Segundo Carone, o aumento do número de players interessados no mercado de pós-produção também passa pelo novo status conferido à área dentro da produção publicitária. “A pós era vista como uma ferramenta de efeitos especiais espetaculares. Hoje, ganhou valor de produção: por meio dos efeitos, é possível facilitar filmagens, reduzir deslocamentos e encurtar diárias”, enumera. “Com as máquinas de hoje, qualquer dia nublado vira um cenário ensolarado, qualquer pedaço de areia pode virar uma praia no Nordeste. Há uma demanda forte nesse sentido, os diretores estão procurando isso. Cada vez mais o trabalho não termina quando acaba a filmagem. Na verdade, para mim, é só o começo.”
Em meio a essas mudanças, as pós-produtoras tradicionais apostam na especialização como diferencial para continuarem líderes de uma área na qual a demanda só aumenta. André Pulcino, sócio e diretor da Tribbo, uma das principais referências do mercado, não encara o novo cenário como um aumento da concorrência. “São empresas diferentes, com produtos, processos e, principalmente, focos diferentes. Sempre haverá espaço para uma boa empresa, dentro do nicho de cada um”, pondera. “Enquanto as produtoras oferecem a pós-produção como comodidade e uma forma de recuperar parte da verba que migrou da produção, nas pós-produtoras esse é o core business.”
Pulcino ressalta que a Tribbo trabalha com produtoras que possuem pós-produção, quando estas atingem os seus limites de produção ou precisam de serviços muito especializados. A O2, por exemplo, continuará a recorrer à Tribbo em trabalhos que não sejam digitais ou quando a demanda superar a capacidade de realizar os filmes no prazo. “Além disso, as produtoras que possuem pós-produção acabam restritas a finalização apenas dos próprios filmes, já que nenhuma produtora dá o seu filme publicitário para uma concorrente finalizar. É utopia achar isso viável”, afirma Pulcino, reforçando sua vantagem estratégica.