segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Telebrás diz que compartilhamento não funcionou

Criação da estatal para gerenciar infraestrutura do plano de banda larga confirma que desagregação de redes não se concretizou como fator de competição.

O presidente da Telebrás, Rogério Santanna, que participou da ABTA 2010, praticamente admitiu que o unbundling (desagregação de redes), considerado, ao lado da portabilidade e da interconexão, o tripé que estabeleceria a competição da telefonia fixa, não aconteceu como esperado e desejado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Dos três elementos competitivos imaginados pela Anatel para a telefonia fixa, apenas a portabilidade numérica foi efetivamente implantada. O unbundling existe e as operadoras até fazem ofertas de compartilhamento de redes. Mas, efetivamente, a desagregação de redes nunca produziu os resultados esperados pela agência. A interconexão, terceira perna da concorrência na telefonia fixa, de fato, nunca chegou a ser acordada entre as operadoras fixas e móveis, que ainda divergem sobre as taxas que se pagam sobre o tráfego sainte e entrante em suas redes.

Assim, da mesma forma que o unbundling não se materializou para a oferta de voz fixa, também para a banda larga a desagregação, que poderia ser usada para a expansão do PNBL, não funciona.

Santanna disse que a separação da estrutura das redes dos respectivos serviços aos quais estão atreladas "depende da maturidade de cada mercado". O presidente da Telebrás citou alguns casos internacionais e disse que apenas a Inglaterra efetivou a desagregação das redes para que a competição se estabelecesse na última milha (last mille) entre incumbents (operadoras dominantes, proprietárias das redes) e entrantes (start-ups que começam do zero).

Na Inglaterra, o OfCom, órgão regulador independente do mercado de comunicações, conseguiu fazer com que houvesse a desagregação de redes porque o mercado britânico estava maduro para receber empresas entrantes e pela própria firmeza do OfCom como agência independente. O fruto do unbundling britânico é a alta competição, inclusive com a presença de operadoras móveis virtuais (MVNOs). O Reino Unido tem atualmente 29,5% de penetração de banda larga.

Nos EUA, ao contrário, o unbundling nunca foi cortejado pela Federal Communication Comission (FCC) assim como a Anatel o fez no Brasil. O mercado norte-americano é amplamente atendido pela alta capilaridade da rede de TV a cabo e isso, aliado à força da FCC, fez com que se estabelecesse a competição. Nos EUA, a densidade da banda larga chega a 26,4%.

Por fim, um outro modelo, da Austrália, em que as telecomunicações são dominadas pela Telstra, incumbent daquele país, o governo terá que construir uma outra empresa para oferecer acesso à banda larga em alta escala. Na Austrália, a penetração de banda larga é de 23,3%. Os dados sobre a penetração de banda larga são de dezembro de 2009 e foram publicados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no final do ano passado.

O presidente da Telebrás citou esses exemplos justamente por conta do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) que, como a Austrália, terá uma empresa estatal própria - a Telebrás - para oferecer rede de transporte ao invés de trabalhar com a desagregação das redes das incumbents - Oi, Telefônica e Embratel. O levantamento sobre banda larga da OCDE não inclui o Brasil. Segundo o portal Teleco, até o terceiro trimestre do ano passado, o Brasil tinha uma penetração de 5,8% de banda larga.