segunda-feira, 21 de março de 2011

Lobão diz: "O rock acertou!"

Em entrevista para o Meio & Mensagem, o músico analisa a atual cena musical brasileira

Lobão: "Nós temos que ter um mainstream razoavelmente inteligente"
Na seção Sapo de Fora da edição 1451 de Meio & Mensagem, o músico Lobão comentou sobre a repercussão de sua autobiografia - que chegou à nona semana entre os livros mais vendidos do País - e também sobre a publicidade brasileira. Na continuação da entrevista, ele explica a polêmica recente com artistas mais novos e também dá sua opinião a respeito do mercado da música brasileira:

Meio&Mensagem - Nos últimos tempos houve uma polêmica em que você criticou o cantor Luan Santana em um programa de rádio. Como foi essa história?

Lobão – Eu dei uma entrevista na Transamérica logo que saiu o livro, na primeira semana de dezembro, e foi uma das mais acessadas (no YouTube). Foi ali que aconteceu: eu percebi que o programa (TransaLouca), por incrível que pareça, era uma coisa pra me detratar, quiseram tirar uma onda. Em determinado momento, ele (o apresentador) começou a falar que “antigamente tinha o Kiss, agora tem o Restart; antigamente tinha o Renato Russo, agora tem o Fiuk; antigamente tinha você, agora tem o Luan Santana”. Quer dizer, eles colocaram essa coisa querendo me enterrar vivo. Quando ele falou do Luan Santana e Lobão eu respondi: “Quero avisar que não é fácil ser eu não hein” (risos). Qual é cara? Isso é uma deformação. Hoje em dia, eu falo que o rádio criou o “coprófago estético”. O cara come cocô e acha que está fazendo o maior espetáculo da Terra. E isso é muito grave para o País, porque acho que isso é uma máquina de fazer burros e as pessoas não notam. De um lado “neguinho” é burro. Do outro - os mais inteligentes, a cena indie- acham que a panaceia da internet vai resolver a vida de todo mundo. E não vai! A maior prova disso é que o que está no rádio é o que prepondera. O mais bacana de tudo isso, ao provocar esse entrevero, é você ver que a reação deste mundo todo foi o mais puro preconceito. Ninguém foi capaz nem de reconhecer que eu existo. Eu fiquei p... pelo seguinte: nos expomos com vida, com carreira, damos a cara à tapa para chegar um cara de rádio e querer explicar que você é igual a um virgem existencial como o Luan Santana, ou como o cara do Restart. E outra coisa: eles estão querendo somar girafa com crocodilo. Porque o meu segmento é Rock n’ Roll e o segmento deles é Ursinho Blau-Blau. Teen idol para aquela garota que está pré-menstruando, porque quando menstrua já se arrepende de ter ouvido aquilo. É uma coisa que gruda. Caretice não tem cura mesmo, é pior que câncer. Aí, nesse caso, eu não tenho outra alternativa a não ser ser grosso.

M&M - Você atribui a responsabilidade sobre essa situação aos veículos?

Lobão - Não podemos atribuir a responsabilidade apenas aos veículos, porque eu acho que é de toda a sociedade - do pai, mãe, escola, governo. Nós temos que ter um mainstream razoavelmente inteligente, porque senão tem só isso e aí fica uma esquizofrenia, porque tem a cena independente – que é super criativa e tem muito público. Os caras de propaganda deveriam sacar que existe uma mídia, uma praça, um mercado. Tem que entender que cada estado tem dois ou três festivais independentes por ano, cada um colocando até 50 mil pessoas e essa turma está “esquizofrenizada”, porque é a classe média pensante criativa do Brasil.

M&M - Mas não existe nenhum veículo que fuja um pouco à regra? Nós temos rádios segmentadas, como a Kiss FM...

Lobão - Mas a Kiss é pior pra gente! A Kiss só reitera que você está com uma língua morta. Se eu fosse diretor de uma rádio de rock a primeira coisa que eu faria seria eliminar o flashback, porque isso dá a sensação errada ao povo brasileiro de que o rock acabou. O rock inspira moda, tendência, comportamento e continua no top do top da área de criação do mundo. Só aqui no Brasil que as pessoas acham que o rock é uma coisa antiga e ultrapassada. Nada ainda, em termos musicais – que eu saiba – é mais moderno do que o rock. Não tem nada mais moderno, mais chique, mais transgressor, mais comportamental do que o Rock n’ Roll. Acho que a minha missão atualmente é tentar mostrar que precisamos frequentar o mainstream. Porque senão ninguém te reconhece, você fica como o melhor do seu quarteirão. Pense nos Beatles: porque eles viraram a maior banda do mundo? Porque, em Liverpool, eles queriam ser a maior banda do mundo. Eu não conheço ninguém que foi o melhor do mundo que não quisesse ser o melhor do mundo.

M&M - Então o movimento indie acaba associando o mainstream à falta de qualidade?

Lobão - As pessoas têm de entender que o movimento indie, se “perigar”, vira um movimento de carolas. Na hora em que você tiver que botar o p... na mesa, você tem que ter o mainstream, tem que virar uma grife no inconsciente coletivo das pessoas, senão não é p... nenhuma. Eu, se não fosse do mainstream, não poderia estar falando isso (risos). Acho que as gravadoras vão mudar de mão, estão mudando, e, pela seleção natural, não vão se estabelecer. Agora, o meio gravador tem que existir, porque movimenta milhões, é um negócio muito lucrativo. Alguém vai ter que chegar e receber essa carga de grana volumosa – de shows, de venda, de direitos autorais etc. As pessoas tem que entender que isso é um negócio sério e pesado. Tem que ter toda uma rede, com todos os seus vícios, todas as suas maldades, mas tem que ter. “Ah, mas você vai tocar no Bolinha?” “Vou, vou tocar no Bolinha, no Raul Gil”... Se você for para os Estados Unidos você vai ver o David Bowie na Oprah.

M&M - Você comentou sobre a panaceia da internet. Você acha que este tipo de mídia é uma alternativa para os músicos independentes divulgarem seu trabalho?

Lobão - O problema é depositar uma expectativa exagerada nisso, é haver um erro de leitura em algo positivo que está acontecendo. Uma coisa não substitui a outra. Eu acho que é uma conduta equivocada ficar deslumbrado com uma panaceia da internet sem vislumbrar que ela é mais um instrumento de comunicação que vai interagir e já interage com os outros – com o cinema, o rádio, a televisão e o teatro. Não é um instrumento que vai se desprender e ter uma vida própria. Você até pensa “as grandes vendagens de disco hoje – até o próprio Restart – eram sucesso de internet”. Mas é uma ponte bem feita, bem sucedida, de fazer aquilo entrar no rádio. Agora, se toda rapaziada mais hype não sentir isso, que tem que entrar no rádio, não vamos ganhar nunca essa batalha.

M&M - Qual sua relação com as redes sociais? Você usa para divulgar seu trabalho? Para um artista mais consolidado, é uma plataforma de aproximação com o público?

Lobão - Eu uso, me divirto, provoco. Eu comecei a fazer isso em 98, fui o primeiro cara a disponibilizar música na internet aqui no Brasil. Fui o primeiro a usar o site para distribuir música. Foi aí que eu comecei a fazer liberação de disco - pus os discos em banca de jornal através do meu site. Inclusive, eu só me mantive vivo em uma época em que estavam dando martelada na minha cabeça por causa da internet. Eu sei o quanto ela tem de valor.