Em entrevista ao Meio & Mensagem, diretor geral do portal, Paulo Castro, fala das negociações e de outros temas importantes do mercado
Um dos maiores portais da internet brasileira, com conteúdos de jornalismo, cinema e TV por assinatura, serviço de download de música, evento anual com shows internacionais (o Planeta Terra) e participação ativa na cobertura de eventos, o Terra ingressou de vez no mercado de direitos esportivos. Desde a Copa de 2006, passando por Jogos Pan-Americanos e também Olimpíadas, o portal agora quer a fatia para a web no Campeonato Brasileiro de Futebol, o maior contrato esportivo anual da TV nacional — já que o Cade determinou no final do ano passado que os direitos têm de ser vendidos de forma separada por tipos de mídia (TV, internet, pay-per-view etc). A seguir, Paulo Castro, diretor geral do portal, fala sobre o crescimento da empresa e sua aproximação do Clube dos 13. É o Terra, site com nome do planeta e representado pela cor laranja, procurando um novo posicionamento no jogo da transmissão do futebol, onde, seguindo a mesma lógica do sistema solar, quem vem brilhando mesmo há anos é Vênus, a platinada.
Meio & Mensagem — O Terra quer os direitos do próximo Brasileirão de Futebol. Como negociar com os clubes, quando eles acham que passar os jogos ao vivo pela internet canibaliza a transmissão do jogo na TV aberta?
Paulo Castro — Nesse momento, estamos vivendo esse desafio com o Clube dos13. Já vivemos em outro momento com a própria Fifa, quando a gente licenciou em 2006 pela primeira vez para a internet a Copa da Alemanha para o Brasil e para a América Latina; vivemos isso nos Jogos Olímpicos de Pequim, em Vancouver. O desafio é que é preciso mostrar que a internet tem diferenciais, e muitas vezes quem está licenciando os direitos pensa na canibalização daquele direito, mas a força que a internet tem como complementariedade e até como superposição, ou seja, como ampliação da cobertura do evento, faz com que não se possa falar em canibalização, na verdade se fala em ampliação inclusive.
M&M — Mas os clubes não estão preocupados com a própria presença deles na internet?
Castro — Acho que os clubes não estão preocupados. Quem está preocupado é a atual detentora, a Globo, que trabalha junto aos clubes esse conceito de que “olha, isso pode fazer perder audiência, a TV a cabo pode ter problema se a internet entrar...” A presença na internet acaba sendo um pouco uma resposta a uma mudança de comportamento do consumidor. O que a gente pode fazer pelo futebol brasileiro, levando-o a pleno na internet, é fazer com que ele esteja mais na cabeça das pessoas, ou seja, não só quando as pessoas estão na frente da televisão ou na frente da TV por assinatura, elas vão ter relacionamento com o futebol, vão ter novas oportunidades de se acompanhar.
M&M — O que tem no projeto de futebol do brasileirão do Terra TV? O que ele inclui: só o jogo, o pré-jogo, o pós-jogo, os gols?
Castro — Pela natureza da internet, ela propicia duas situações: tem a possibilidade da transmissão ao vivo aberta, valorizando de certa forma aquela transmissão da TV aberta, independentemente de assinatura para quem quiser, e os números da internet mostram que tem potencial. São 75 milhões de brasileiros na internet hoje! E a transmissão é aberta inclusive em outras plataformas que suportam a internet, como os smartphones, TVs conectadas... Esse é um modelo.
M&M – Então, o direito de internet inclui todas as plataformas digitais?
Castro — O vídeo trafega pela internet, o que não inclui é o que é só específico de mobile, o que a gente chama de mobile tradicional ou mobile 1.0, como enviar SMS, MMS (serviços das operadoras de celular). Outra coisa importante da nossa proposta é que, além da possibilidade de transmitir os jogos abertos, a internet permite o recurso de pay-per-view, ou o on demand, que seriam um serviço premium. Seria o mesmo conceito que a gente tem no Sonora, e fazemos as analogias. Explicamos para o pessoal, que o Sonora funciona assim: tenho músicas que as pessoas consomem abertamente, e outras músicas. Daí as pessoas não podem escolher tudo, então, talvez ela não possam escolher todos os jogos, mas podem ver um jogo que está aberto, e escolher outro por que se paga, o pay-per- view (PPV) — é o modelo que tem hoje na TV paga. É nesse aspecto a vantagem que a internet tem para os clubes, que é o potencial de alcance maior que hoje a TV paga tem. Atualmente, fala-se na TV paga crescendo bastante; acho que ainda vai continuar crescendo.
M&M — Qual o potencial de público?
Castro — O que dá pra dizer é que dos 25 milhões de pessoas que têm TV a cabo praticamente todos têm internet, mas há ainda outros 50 milhões que não têm TV a cabo nem internet. Então, o potencial de inclusão de audiência, seja para um produto do tipo que já existe hoje de assinatura para ver os jogos, seja um produto de entrar para ver um jogo específico, é grande. Então defendemos que a internet tem isso também...
M&M — E qual é o parâmetro de valor para tudo isso?
Castro — Como é uma coisa nova, não é possível dizer um valor...
M&M — Mas qual seria um referencial possível?
Castro — É importante para os clubes pensarem que hoje a receita que vem da internet — seja no conceito cobertura aberta do futebol, seja no conceito pay-per-view, ou assinatura — é zero. E como já foi feito nas últimas duas ou três rodadas de negociação desses direitos, se continuar sendo vendido junto com os tradicionais, continuará zero, porque eles não estão aqui para desafiar o seu próprio negocio. O sentido positivo é o de criar mais valor, porque é normal isso. Quer dizer: quem é bastante competente no seu negócio tradicional, dificilmente também vai alavancar um negócio competitivo a esse. Não posso falar em cifras, mas eu acho que o Clube dos 13 tem de levar essa proposta de uma forma independente — como está levando —, seja ela 30%, 50 % ou 10% em relação à outra, porque só assim você desenvolve um novo negócio. Há oito anos não existia o pay-per-view como negócio. Hoje já é um negócio que rivaliza em valor para os clubes com a TV aberta. Então, com a internet, qual é o desafio? Por um lado, é mostrar que é diferente, por outro, é mostrar que tem potencial e dizer: este é um negócio que, se eu estiver com o chapéu, eu o passo para os clubes, quer dizer: “esse negócio vocês têm que desenvolver, vocês precisam ter isso, e aí a gente traz os exemplos. O Clube dos 13 está bem respaldado nisso também que está acontecendo fora do Brasil nas ligas europeias, nos EUA, não no soccer, não no futebol mas no basquete, na liga de beisebol, na NBA. Quer dizer, são ligas que hoje já têm um valor considerável vindo da internet. Creio que... Qual é a grande vantagem do Brasil, em geral? Eu não vejo que a TV a cabo, a TV por assinatura esteja ameaçada em seu potencial de crescimento, ela tem muito espaço para crescer e mesmo no negócio da TV tradicional, na TV aberta, você tem um mercado pulsante que quer comprar essas cotas e quer anunciar e quer investir no que você tem. E agora vamos abrir mais uma cota. Daí, é um momento muito adequado para os clubes fazerem essa abertura, esse lançamento de uma nova frente que pode gerar resultados importantes para eles próprios e não acredito que se possa assim, realmente em sã consciência, dizer que pode haver alguma canibalização da imagem dos clubes. Ao contrário, ao contrário. Então, eu uso um argumento que se refere a um presidente da Disney, falando há uns quatro anos na abertura da CES, quando ele fez a abertura e disse: levar o Lost para internet transforma um produto que eu tenho, de uma hora por semana à noite, para 24 horas por sete dias. Levar o futebol brasileiro, com a possibilidade de ver os melhores momentos, pagar pra ver tudo. O pay-per-view tem esse mesmo potencial. Eu elimino o efeito da grade, da restrição da mídia tradicional sobre a propriedade do futebol e com isso eu aumento com certeza o engajamento das pessoas com os clubes. E aí também com as marcas que patrocinam os clubes porque esse também sempre é um ponto crucial. Você já deve ter lido que em alguns momentos se traz à tona o fato de que, se diminuir a audiência, vai diminuir a exposição e os anunciantes vão pagar menos pela camisa do clube.
M&M — Mas qual seria, do lado de vocês, o custo para cobrir todos os jogos nacionalmente, com câmeras e infraestrutura de captação e transmissão?
Castro — A questão de cobrir todos os jogos, isso não nos assusta, é um investimento. Mas o produto “futebol brasileiro” é um produto desejado. Pelo próprio exemplo da Globo, vemos que, como a renovação dos patrocínios e as novas cotas mostram que há mais dinheiro no mercado publicitário disponível para se associar ao futebol brasileiro do que a própria Globo já está captando, quer dizer que outras marcas, talvez até concorrentes, poderiam ser patrocinadoras de uma cobertura do campeonato brasileiro no Terra, e não necessariamente as mesmas na Globo. E o Clube dos 13 já externou a possibilidade de o próprio clube de alguma forma ser responsável pela captação do evento e levar o futebol brasileiro a um nível que está hoje um evento como as Olimpíadas, como a Copa do Mundo, jogos da Uefa, como a NBA nos EUA, como a liga de beisebol. Ou seja, o clube ser responsável pela captação. A entidade Clube dos 13, por meio de parcerias, terceiros, se encarregaria de entregar um sinal, um sinal e conteúdo de qualidade, de certa forma homogêneo entre as diversas plataformas.
M&M — É o modelo em que o detentor dos direitos administra também a comercialização de sua imagem.
Castro — Mas isso não exclui o protagonismo, a criatividade das diversas emissoras. Como funciona nas Olimpíadas e Copa do Mundo, podem-se colocar câmeras extras, ter comentarista lá dentro do estádio, tudo isso na verdade cria um patamar mínimo de qualidade da cobertura do evento, que gera para os clubes, além da propriedade do conteúdo, também a possibilidade de se fazer subprodutos. E há ainda o pré-jogo, ou o pós-jogo. Todos esses conteúdos têm potencial de se trabalhar à lá carte, on demand, que é um diferencial também. São conteúdos que caem muito bem na internet, porque a grande vantagem da rede é que, quando a gente olha o conceito da audiência, é diferente. Um exemplo: em Lost, nos últimos capítulos, tivemos mais de um milhão de views de cada capítulo. Isso certamente superou a TV fechada, mas o conceito é uma audiência acumulada ao longo daquela semana. Não é que eu tenha de ter um milhão de pessoas diante do Terra TV na segunda-feira à noite, das 21h às 22h, que é o conceito que a TV busca. Para esses conteúdos variados, é uma espécie de um long tail — ou seja, se tenho muitos conteúdos, talvez eles interessem à torcida do Fluminense, mas não interessa à do Vasco, Palmeiras nem Corinthians — assim, a internet traz como uma grande vantagem, porque o on demand é perfeito para isso. A TV teria uma dificuldade de sacrificar a sua grade e fazer. Eu posso terminar o Faustão antes e passar o pré-jogo, e talvez não valha a pena no modelo da audiência acumulada, linear. Esse é um dos temas que acho que é importante também, e a gente vê isso tudo com muita clareza, mas é óbvio que é difícil de traduzir e fazer as pessoas sentirem.
M&M — Só pra complementar essa proposta do Clube dos 13. Vocês em algum momento pensam em levar para fora do Brasil, para a América Latina?
Paulo Castro — Nós temos interesse sim. O modelo para fora do Brasil no meu entendimento é mais centrado no pay-per-view, porque aí é mais fácil de conseguir de fato rentabilidade e resultado, pois temos um parque instalado, com uma vocação muito forte de vendedor de assinaturas. Somos por DNA também um vendedor de assinatura. Começamos com acesso, vendemos assinatura de Sonora, assinatura de outros conteúdos. Mas, dentro da visão do Clube dos 13, provavelmente essas duas coisas aconteçam de forma separada, porque, em geral, os mediadores de direito não gostam de misturar territórios.
M&M — O que há até agora já acertado para a transmissão do Pan-Americano de Guadalajara, em outubro no México?
Castro — O nosso pacote de anunciantes máster – Bradesco e Procter & Gamble já fechados — e há mais dois. É um pacote de dois anos, que começa agora e vai até o final do ano que vem, com o auge em agosto e setembro de 2012, porque a Olímpiada de Londres acontece em julho. É um pacote para o qual temos esse conceito de múltiplas telas. O pacote dos anunciantes é para o conteúdo, seja no computador, no iPad também, no celular, no digital. Quer dizer, eles chancelam a cobertura do Terra em múltiplas telas em TVs conectadas...
M&M — Como assim as múltiplas telas?
Castro — Múltiplas telas, conteúdo da mais alta qualidade. Nós temos o conteúdo do Comitê Olímpico, da Odepa, que é o conteúdo desportivo pan-americano, e em alta definição. Pilotamos isso durante a transmissão do Planeta Terra e vamos transmitir em até 13 canais em alta definição. Mas todo mundo vai poder ver em alta definição? Quem não consegue ver em alta verá em definição padrão, mas teremos até 13 canais simultâneos em alta definição para mostrar realmente toda a riqueza dos Jogos. E simultâneos, com jornalistas nossos lá em Guadalajara, aqui em São Paulo, em outros países... M&M — O que vocês estão pensando para os tablets? Castro — Temos para o iPad, tablets, que suportam a transmissão ao vivo em vídeo. Não teremos um aplicativo necessariamente, mas estará em um HTML 5, que, por ser linguagem mais universal, também ajuda a alavancar a audiência, pois a partir do próprio portal Terra temos o link para essa cobertura. E acaba sendo a melhor maneira.
M&M — Então, o objetivo são todos os dispositivos?
Castro — Sim, temos que respeitar a limitação do device: um iPhone não consegue fazer a mesma coisa que um iPad. Mas pelo fato de o conteúdo ser passivo de interatividade, consegue-se mesclar o vídeo com a estatística, e isso é um negócio bacana, porque na TV por assinatura, se você fizer isso, vai acabar sacrificando um pedaço da tela e durante todo o tempo.
M&M — Sobre os resultados. Como está o desempenho do Terra Brasil?
Castro — Do ponto de vista dos negócios. No Sonora (serviço de música online do Terra), conseguimos dobrar a média diária de vendas, desde que atualizamos o portfólio, no final de 2010. O modelo de vendas é por assinatura.
M&M — Como o Terra projeta seu desenvolvimento, na perspectiva do crescimento do mercado de banda larga no Brasil? E dentro disso, a publicidade?
Castro — O mercado de banda larga está superpositivo e tem três fatores que ajudam a explicar isso: o primeiro é a questão econômica. Acho que tem realmente essa nova classe média, esse aumento da capacidade de poder de compra da classe média. Ele é direcionado para alguns itens. Se você pega o item computador e internet, ele é um top of mind, um item desejado pelas pessoas. Você tem os três C: casa, computador e carro. O segundo fator é a interiorização do Brasil, que está crescendo de uma forma bem mais descentralizada e há uma expansão e um crescimento muito importante no Nordeste. Existe um espaço muito grande para crescer no ponto de vista de oferta de banda larga nestas regiões que, historicamente, foram menos atendidas. E o terceiro fator é a banda larga móvel. Se há um ano e pouco falávamos que um terço dos acessos já era de banda larga móvel, hoje falamos que metade dos acessos é de banda larga móvel. Trabalhamos pensando nos grandes eventos esportivos de 2012, 2014 e 2016. Trabalhamos com patamares de usuários de internet acima de cem milhões, depois acima de 120 milhões. Esse é o nosso número. Imaginamos que em 2012 já se possa chegar próximo dos cem milhões e, em 2014, 2016, tenhamos uma internet com 120 milhões a 130 milhões de usuários.
M&M — Qual o tamanho do Terra hoje como provedor de acesso em relação ao provedor de conteúdo?
Castro — Dez anos atrás, uns 90% da nossa receita era de acesso. Agora, desde 2009, mais da metade do nosso negócio é mídia. Em mídia, somos a receita de publicidade e as receitas dos produtos de conteúdo, como o Sonora.
M&M — E qual é o objetivo, chegar a quanto?
Castro — Não abandonamos o negócio de acesso. O que houve na verdade foi uma mudança muito forte no modelo do acesso. Com a banda larga, ocorreu diminuição dos valores relacionados com os provedores. Então, continuamos com a oferta de acesso. Temos um papel importante a cumprir ao trazer clientes para a internet: assessorá-los. E também a oportunidade para oferecermos outros produtos como é o caso do Sonora, do Media Store, produtos pagos, e o portal aberto gratuito, o Terra TV. Portanto, não é um modelo que a gente tenha abandonado. A tendência natural, e eu até me lembro que comentava isso aqui internamente há uns cinco anos, quando eu disse: “Olha, a gente tem que comemorar que temos 2,4 milhões de assinantes, mas não podemos esquecer que existem 40 milhões de usuários na internet brasileira” e, se a gente ficar focado só nos 2,4 milhões de assinantes, isso acaba diminuindo a estatura do negócio como mídia. O negócio como mídia não poderia ser amarrado só aos assinantes, e eu acho que esse foi um ponto de ruptura importante para nós, quando decidimos: “Vamos levar as coisas de uma forma paralela. Um negócio pode alavancar o outro”. Mas o que tem o maior potencial no final do dia é o de mídia. Quanto a isso eu não tenho dúvida.
M&M — Qual sua perspectiva do mercado para a internet este ano?
Castro — Nos EUA há um gap de US$ 40 bilhões entre a audiência e a receita da internet. Não quantifiquei isso no Brasil, mas certamente o País vive hoje um gap entre a audiência e o valor em termos financeiros investidos pelos anunciantes. E esse gap significa uma oportunidade, ou seja, mais cedo ou mais tarde, meu dinheiro segue os air balls. Essa é uma máxima do mercado de publicidade. E ele está seguindo, e a taxas maiores do que as do crescimento do mercado. Temos nos últimos cinco anos ou mais sempre a internet sendo o veiculo que mais cresce.
M&M — Quanto vocês cresceram em 2010?
Castro — Mais de 25 % no negócio de publicidade, os quais pretendemos crescer novamente este ano. M&M — Sobre regulamentação, há uma grande questão na mídia nacional a respeito d a presença do capital estrangeiro em empresas de jornalismo. O Terra é uma empresa jornalística? Castro — Sobre o Terra, podemos dizer que é uma empresa de comunicação. É uma empresa que traz informação para as pessoas por meio de novos canais. Porque há uma interpretação da Constituição, na qual se procura incluir a internet, ou levar informações e notícias pela internet como se fosse jornalismo no sentido que a Constituição entende. E nós não entendemos assim. A nossa posição é que a Constituição escrita lá em 1988 e revisada em 2002, para incluir a possibilidade de vender até 33% do capital para estrangeiros, não previu nem incluiu a internet. Quando a gente faz uma retrospectiva histórica, enxerga-se o seguinte: em 1934 foi a primeira vez que na Constituição houve alguma limitação à propriedade de empresas jornalísticas ao capital estrangeiro, na época se falava estritamente no jornal. Em 1946, a Constituição foi revista e incluiu-se o rádio. Em 1964, novamente a Constituição foi revista e inclui-se a televisão. Então o que os constitucionalistas que consultamos nos disseram é que, por ser uma norma restritiva, tem que haver explicitamente a menção da internet para que haja a restrição. Por quê? Porque se não há direitos maiores que se sobrepõem, qual é o direito maior? O direito da informação, o direito da livre iniciativa, do livre empreendimento, da liberdade de expressão. Todos esses são direitos que são da Constituição e que estão presentes, e não dizem: “Não valem para a internet.” Eles teriam que dizer explicitamente. Se a liberdade de expressão não vale pra internet, tem que dizer. Toda restrição tem que ser explícita. Acho que esse embate começou na verdade já no final do outro ano, começou no final de 2009, com a audiência pública promovida na época pela Abert e pela ANJ na Câmara dos Deputados, onde se procurou debater o assunto. Naquela época, a gente não participou do debate, não fomos convidados. Depois, eu participei de mais dois debates sobre o assunto, e numa dessas audiências públicas foram expedidas citações para vários órgãos do governo, Ministério Público, Casa Civil, Anatel, comitê gestor de internet, um após o outro. Isso reforçou a nossa tese de que a internet não pode ser fiscalizada dessa forma por essa lei. Veio o argumento de que o Terra opera de forma ilegal, porque tem capital estrangeiro num site de informações, e tem que ser classificado e vetado pela Constituição. Isto acabou revertendo em uma série de negativas, vários órgãos se manifestaram e disseram: “Não, não entendemos desse jeito, não compete, a Constituição não veda...” E aí a coisa esfriou, pois nós tivemos um período eleitoral no final do ano passado.
M&M — E como está agora?
Castro — Uma das ações que a gente tomou logo depois dessa discussão foi dar uma olhada no que acontece no mundo. Fizemos um estudo grande com um escritório internacional de direito comparado. Há em vários países uma restrição ao capital em mídia tradicional. Nos EUA, por exemplo, o ambiente é até mais restritivo que o Brasil. Lá, um jornal só pode ter 25% de capital estrangeiro. Também nos EUA, internet não tem nenhuma restrição e o Terra inclusive opera nos EUA, como um portal com notícias e é um portal de capital estrangeiro, da mesma forma que o Terra é aqui no Brasil, de capital espanhol. Na Argentina, há restrições, e o Terra opera lá também, não havendo restrições para a internet. Poucos países têm restrições à internet: Irã, Cuba, China e Vietnã — países que têm restrições à propriedade. Só que estes países descobriram que não basta restringir o capital, eles também têm de controlar a liberdade das pessoas, o acesso, a navegação. Tem uma faixa intermediária. Estou vendo o estudo aqui da minha gaveta, Emirados Árabes Unidos, por exemplo. Lá é o seguinte: você pode ter um portal estrangeiro de notícias, só que ele tem que estar em uma zona franca e nada impede que ele publique notícias que são lidas em todos os Emirados Árabes Unidos. Então, na verdade a restrição de fato não existe. A França, por exemplo, é um país que criou restrições maiores à propriedade de mídia logo depois da Segunda Guerra, já que os alemães compraram os principais jornais. Então, a França proíbe a compra de empresas estabelecidas de mídia, inclusive de internet. Assim, uma empresa americana não pode ir lá e comprar o Le Monde, mas não impede nenhuma empresa de se estabelecer ali desde o zero. O Terra não existe na França, mas se a gente quisesse criar o Terra na França com a mesma estrutura de capital que temos aqui, poderíamos, desde que fosse do zero, sem aquisição local. Daí, que nesse estudo, olhando o mercado mundial, se não me engano, foram 143 jurisdições pesquisadas, somos uma prova de que pelo menos na América Latina e nos EUA, onde temos operações — são 18 portais na América Latina, 18 países e nove escritórios locais, nove países com presença própria, Argentina, Chile, Peru, Colômbia, Venezuela, México, EUA e Brasil—, não há restrição. Quer dizer, são todas com a mesma estrutura de capital. Por que isso é importante? Porque a gente não quer em hipótese alguma fugir do debate. O que nos preocupa é quando é feita uma audiência pública e não somos convidados para debater. Eu quero debater. Acho que é saudável. Hoje em dia, o caso do Sonora é um exemplo, pois a maior parte das gravadoras é de capital estrangeiro, no entanto, a maior parte da música vendida no Brasil é nacional. E o exemplo da internet acho que é o que se aplica aqui. A gente não tem uma grade única em que vou formatar uma oferta única, terei uma oferta múltipla, que faz com que o usuário vá lá e acesse o que ele quer e, ao fazer isso, é diferente da mídia tradicional. Então, por ser diferente, não há por que pôr as mesmas restrições, o DNA é diferente, ele permite uma atuação de forma diferente.
M&M — Em sua opinião, o questionamento é mais intenso pelo fato de o portal estar ligado a um grupo estrangeiro ou por pertencer a uma empresa de telecomunicações (a Telefônica)?
Castro — Existe a ligação com a tele, com o capital estrangeiro. Obviamente que isso é importante, mas acho que a gente tem sido mais protagonista ao desafiar o modelo tradicional que é o de modelos novos, de buscar conteúdos que não estão na internet, de buscar licenciar e ser o primeiro a licenciar o campeonato da Fifa pra internet. Fomos o primeiro a licenciar modelos de séries como o Catch up (formato que acompanha as estreias de seriados na TV por assinatura e permanece disponível por uma semana). Tudo isso mostra obviamente que a gente tem um DNA de protagonismo. Desde 99, quando a Telefônica adquiriu a empresa, fomos sempre agnósticos sobre como as pessoas chegam até ao Terra. Atuamos sempre como multioperadora, digamos assim. Primeiro, porque a gente atuava em todo o Brasil, e a Telefônica estava muito focada aqui no Estado de São Paulo. Então, desde o primeiro momento, a gente atuou com todas as operadoras de banda larga e oferecemos o Terra para as diversas formas de acesso discado, cabo, ADSL, satélite, o que seja. Portanto, nós não temos uma amarração tão forte em atuar 100% sincronizados com o grupo Telefônica nesse sentido. Espero ter sido claro para que isso não me cause problemas com a Telefônica (risos).
M&M — Explique um pouco como vocês encaram o conteúdo.
Castro — Nosso modelo é um tanto desafiador, porque ao desafiar o modelo tradicional, não é para revolucionar. Não é nesse sentido, é no sentido de que a gente acredita já há muito tempo que existe uma nova forma de consumir conteúdo, e essa forma se materializa por intermédio de novos dispositivos, pela internet, pelos tablets, mas não para aí. Há pouco, a Ford lançou nos EUA um carro que tem uma tela onde se consegue acessar conteúdo. Então, estamos vivendo um mundo no qual haverá cada vez mais e mais dispositivos de onde eu possa acessar conteúdo, e nosso DNA é esse: nós não temos o DNA da mídia impressa, da TV, da TV por assinatura, a nossa empresa desde o primeiro momento olhou para essa forma de entregar conteúdo, entregar a informação, e a maior parte do conteúdo e informação que a gente entrega nem é gerado pelo próprio Terra. A capacidade de geração que a gente tem, inclusive porque essa ausência de grade acaba criando uma loucura de realmente oferecer muita informação. Se a gente pegar o que oferecemos no Terra TV hoje em séries, não cabe em um, dois ou três canais de TV por assinatura. Precisa realmente de mais...
M&M — Vocês estão negociando com praticamente todos os estúdios, certo? Castro — Temos Fox, Warner, Disney, Sony, National Geographic, History Channel, Discovery. É uma gama muito ampla, têm videoclipes...
M&M — É um modelo de negócios que não inviabilizou a TV por assinatura...
Castro — Exatamente. É uma parceria que, na verdade, não tem só o Terra interessado nesse assunto. O consumidor está interessado e o distribuidor também. Quando a gente procurou e fechou com a Disney pela primeira vez, na época levamos o case da Fifa — tínhamos recentemente feito a Copa da Alemanha 2006. E fomos até a Disney: “Olha, a gente quer reproduzir na internet os seriados, os filmes.” Já tínhamos uma parceria com a Disney em online em jogos, em oferta de conteúdo pra crianças e conseguimos estender naquela ocasião para os vídeos pela internet, e fez sentido.