quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A sucessão de Steve Jobs

Apple sofre pressão para dar detalhes sobre quem ocupará a vaga do fundador da companhia que vale US$ 330 bilhões


Steve Paul Jobs, fundador e face principal da Apple, completa 56 anos nesta quinta-feira, 24. Para a maior parte das pessoas, essa é a idade em que o profissional está no auge da carreira. Para Jobs, ao que tudo indica, é hora de se aposentar. Em meados de janeiro, o CEO da Apple anunciou que se retiraria da empresa para cuidar da saúde. Em dois anos, é a segunda vez que Jobs precisa se afastar do dia-a-dia da Apple por problemas de saúde. Sites e blogs de tecnologia dos Estados Unidos especulam que o câncer pancreático contra o qual Jobs luta desde 2003 seria a causa dessa nova licença. Em 2008, o CEO fez transplante de fígado.

A Apple é uma das empresas mais fechadas do Vale do Silício e tudo o que Jobs se permitiu de declaração formal sobre o assunto foi que continua como CEO da empresa e está diretamente envolvido nas questões estratégias da companhia que redesenhou o mercado de música, com o iPod e o iTunes, o segmento de smartphone, com a criação do iPhone e a venda de aplicativos via App Store, e revolucionou o setor de tablets com o lançamento do iPad e novos modelos de negócios para a mídia.

Enquanto Jobs se mantém fora da rotina da Apple, o COO da empresa, Tim Cook, ocupa interinamente o lugar do fundador. Mas, independentemente dos problemas pessoais de Steve Jobs, o valor de mercado da Apple supera qualquer outra questão. A empresa é avaliada em US$ 330 bilhões e é a segunda corporação mais valiosa do mundo, atrás apenas da petrolífera Exxon Mobil, que vale US$ 422 bilhões.

Acionistas

Nesta quarta-feira, 23, os principais acionistas da Apple se reuniram e votaram contra um plano que exigia da empresa uma estratégia formal de sucessão, inclusive com a indicação de nomes que venham a substituir Jobs caso ele não retorne mais a Cupertino (sede da empresa na Califórnia).

As ações valiam US$ 340 nesta quinta-feira e registravam queda. Queda, aliás, que tem se verificado desde o anúncio do afastamento de Jobs, no dia 17 de janeiro. A Apple tem ações negociadas na Nasdaq e, desde que foram publicadas fotos do CEO abatido, na semana passada, a queda dos papéis tem sido constante.

O Fundo de Pensão Central Labore´s, administrado pelo Laborers’ International Union of North America (LIUNA), é um dos principais acionistas da Apple: detém 11,5 mil ações da companhia e gerencia US$ 34 bilhões distribuídos entre 100 fundos de investimentos, todos cotistas da Apple. A porta-voz do fundo, Jennifer O´Dell, declarou que a Apple deve divulgar os planos para os acionistas, pelo menos. Uma vez mais, a Apple se absteve de comentar. Outras empresas - como a Hewlett-Packard e Intel - foram confrontadas recentemente com propostas semelhantes feitas pelo fundo e concordaram em divulgar alguns detalhes sobre seus planos futuros, afirmou a porta-voz.

Segundo o jornal The Washington Post, grandes investidores institucionais da Apple não parecem estar alarmados com a saúde de Jobs como o Central Labore´s aparenta estar. Para o jornal, o plano de sucessão da Apple parece claro. Teoricamente, o COO Tim Cook, preenche os requisitos do cargo de CEO se Jobs efetivamente sair da empresa.

Paralisia e vazio

Em matéria publicada no Meio&Mensagem no final de janeiro, alguns especialistas brasileiros comentaram a eventual saída de Jobs do comando da Apple. “O estilo personalista de Jobs gera essa expectativa por um vazio na liderança quando ele deixar definitivamente a função. Os processos ficam comprometidos com a ausência dele e a empresa pode até passar por uma paralisia”, opiniou o professor do Insper, Arthur Diniz, que é especialista em liderança. Diniz comparou o caso da Apple com a TAM, no Brasil, que perdeu o seu maior garoto-propaganda, o fundador Rolim Amaro. “Eles ficaram perdidos por uns três anos”, afirma o professor.

O professor do Ibmec, Bento da Costa Filho, fez analogias aos casos de Akio Morita, da Sony, e de George Eastman, criador da Kodak. “Nem todas as organizações conseguem se manter no topo com a ausência de seus fundadores”, disse o professor. Posição contrária tem o presidente da Agência Click Isobar, Abel Reis: “A Apple é uma filosofia baseada no encantamento constante das pessoas pelos produtos. Mesmo com a ausência de Jobs, ela persistirá”.

Ambivalente, Jobs continua a imprimir o estilo low profile sobre si e sobre os rumos da própria Apple. O homem calmo, cujas apresentações são feitas em ambientes assépticos com jazz como trilha musical, que gosta de andar descalço e de bermuda e usa apenas camisa preta, calça jeans e tênis nas aguardadas aparições oficiais, também é conhecido por ser perfeccionista e, segundo ex-funcionários próximos, é também um déspota para o qual os grupos de desenvolvimento da Apple e a empresa são apenas uma pessoa: ele mesmo.