Um alívio para o estresse do ouvinte no trânsito, programas humorísticos conquistam cada vez mais espaço nas emissoras FM
Que “rir é o melhor remédio” todos já sabem. Mas, no caso das rádios, esta frase se aplica ainda mais: numa mídia onde um dos maiores destaques é a música – que, por sua vez, pode ser retransmitida até simultaneamente em mais de uma emissora –, produções próprias acabam sendo um grande diferencial na hora da conquista da audiência.
No caso dos jovens, nada melhor do que o humor para atrair a atenção. Para Jayr Sanzone, diretor-geral da Metropolitana FM, “é importante que as rádios tenham programas de humor de bom gosto, engraçados, porque isso prende o ouvinte. Enquanto a música pode ser tocada em várias rádios, um programa como o ‘Chupim’ só pode ser transmitido aqui, não pode acontecer em outra emissora”. O programa, que é uma das maiores audiências da emissora, conta com diversos patrocinadores – dentre eles Claro, Globo.com, Veris IBTA e CNA.
Neste ano, o “Chupim” traz de volta um antigo quadro: o “Orelhão Premiado”. Nele, os locutores informam a localização do aparelho que premiará os ouvintes e, após algumas músicas ou uma passagem de bloco, ligam para ele – que acaba gerando uma grande disputa para ser atendido. Sucesso de outrora, o quadro estava fora da programação desde meados de 2010.
Segundo Cristiano Castilho, gerente comercial da Metropolitana, “antigamente existia um preconceito, mas o cenário mudou. Atualmente, além de patrocínios, o programa atrai também uma quantidade interessante de testemunhais com ações promocionais”.
E o caminho parece dar resultados: a instituição de ensino Veris IBTA registrou um retorno de ligações recorde após os testemunhais inseridos no meio do programa. Outros clientes, como a Claro, também apostaram na irreverência do Chupim para anunciar: durante os programas, os personagens utilizavam o jargão “troca o chip” para qualquer tipo de assunto chato que estivesse em pauta.
A rádio Metropolitana, inclusive, aposta bastante no humor como diferencial de sua programação: além do Chupim, a emissora ainda conta com um programa matinal de humor, o “Cafeína”, que – apresentado por Marcelo Batista – traz algumas doses de humor para seus recém-acordados ouvintes. Nele, além das já tradicionais pegadinhas presentes neste tipo de programa, os ouvintes ainda podem mandar recados ou até reclamar com os apresentadores. “Um dos motivos dos programas de humor concentrarem audiência é justamente a interatividade que eles proporcionam, fazendo com que o ouvinte pare e se interesse quando está passando pelas rádios”, afirma Sanzone.
Outro destaque da programação fica por conta do “Sem Som”, “drops” que vão ao ar durante o dia todo, trazendo mais pegadinhas para seus ouvintes. Inpirado no Censo do IBGE, o programa liga para a casa das pessoas e faz uma entrevista nos moldes da pesquisa, para depois continuar com perguntas absurdas até que o escolhido se estresse. Isto acaba atraindo ainda mais os ouvintes – principalmente jovens – que, além de se divertirem com o quadro, podem sugerir conhecidos para a brincadeira, aproveitando a interatividade do programa.
Pânico
Outra rádio que é reconhecida pelos seus programas de humor é a Jovem Pan FM, que transmite – dentre outros – os já tradicionais “Pânico” e “Chuchu Beleza”. Principal referência do segmento e um dos carros-chefes da emissora, o programa “Pânico” é um dos que atraem mais patrocinadores e ações. Moacir Zeitel, diretor comercial da rádio, diz: “Procuramos disponibilizar formas criativas para os patrocinadores, como a Skol – que anuncia no programa da TV, no rádio e na internet”.
E, em meio às formas criativas de patrocínio, um exemplo de ação bem-sucedida é a inserção dos anunciantes no meio dos programas: a Faculdade Anhanguera, por exemplo, aparece em um “programete” Dr. Pimpolho, do Chuchu Beleza, em que o personagem principal não aumenta o salário do funcionário pela falta do curso universitário. “Este tipo de possibilidade de fazer uma interação agrada e atende a uma demanda do mercado de anunciantes, que é fazer mídias diferenciadas”, afirma Zeitel.
Para a temporada de 2011, a emissora aposta no novo programa “Oráculo”, com apresentação de Ronald Rios. Sucesso na web, Rios passou pela MTV com o programa “Badalhoca” e agora migra para o rádio. Para Zeitel, “o formato do programa já é uma inovação, pois traz uma pessoa que faz sucesso na internet para outro tipo de mídia”. E a ideia já está dando resultados: graças à força que o apresentador tem na internet, o programa acaba sendo muito comentado também nas redes sociais.
Cross-mídia
Seguindo a linha de cross-mídia entre internet e rádio, a Mix FM aposta em um quadro com O Criador, que já faz sucesso no Twitter com sua “paródia santa” há algum tempo. Outro grande conhecido do público, Marco Luque, integrante do programa CQC, também dá sua voz à rádio no quadro “Jackson 5”, onde imita um motoboy.
O quadro caiu nas graças dos ouvintes - ganhando prêmio da APCA como um dos melhores de 2010 - e também atraiu anunciantes: marcas de motos, como Sundown e Honda, já investiram em inserções no programete. Para André Shiro, coordenador artístico da emissora, “o meio rádio está cada vez mais se adaptando às novas exigências – não só do público, como também do mercado – e por isso os anunciantes acabam esperando sempre novos ‘produtos’, que sejam diferentes do spot de 30 segundos”.
Mas também existem aqueles que procuram outros caminhos: a Energia 97 FM, por exemplo, busca fugir do padrão através de programas mais divertidos. Segundo Hilton “Sombra” Malta, coordenador artístico da emissora, “sem dúvida algo mais descontraído atrairá mais audiência, mas é perigoso quando uma rádio se sustenta em cima de programas de humor, pois acaba ficando presa a fazer piadas e a ser engraçada. Na Energia, procuramos fugir dessas coisas padronizadas, como pegadinhas”.
Mesmo adotando esta posição, um dos programas mais antigos da emissora – o matinal “Energia na Véia” – já ganhou um APCA de melhor programa de humor. “Nem nós entendemos o porquê de programa ganhar este prêmio – uma vez que, mesmo com algumas situações divertidas, não é um programa de humor”, afirma Sombra. Buscando fazer um “flashback” com sucessos antigos, o programa é apresentado por uma personagem idosa, teatralizada e caricata, mas que não conta piadas. “Na Energia, o humor é incidental, não está propositalmente no programa”, explica o coordenador.
Fica claro, então, que em meio ao crescimento e à predominância das novas mídias, o humor ainda é uma das mais poderosas muletas do rádio. Segundo o apresentador do Chupim, Marcelo Barbur, “somos o respiro de humor na hora do dia em que o paulistano mais se estressa, quando está preso no trânsito”. Desta maneira, é natural que programas deste tipo ainda atraiam grande parte da audiência – uma vez que, para enfrentar o caos e o trânsito diários da metrópole, nada melhor do que algumas risadas.