terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Obama quer interferir em domínios da internet

Governo dos EUA quer ter poder de veto sobre os novos registros da rede mundial, que já tem mais de 202 milhões de endereços


O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, quer que os governos tenham mais poder sobre a decisão de quais novos domínios se poderão introduzir na internet. A proposta de Obama inclui a possibilidade de ter direito de veto a novos endereços. Se isso acontecer, a Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números (ICANN, na sigla em inglês), que é a entidade sem fins lucrativos - e cuja atividade é supervisionada pelo Departamento de Comércio norte-americano, responsável pela coordenação global do sistema de identificadores da web (extensões como .com, .net, .org e números IP) -, teria seu funcionamento alterado.

Atualmente, a ICANN tem liberdade para estabelecer sufixos usados na internet e para distribuir os endereços IP (números que identificam os computadores conectados à web). O argumento da administração Obama é que os governos poderão brecar a criação de um determinado domínio ao qual se opõem, o que evitaria, por exemplo, que ativado esse domínio, determinados países bloqueiem o acesso a esse endereço, o que provoca a fragmentação da internet. Exemplos recentes desse bloqueio são alguns sites internacionais cortados pelo governo do Egito (que também solicitou o corte total do acesso à web à Vodafone e foi atendido) e do Irã (nas manifestações semelhantes que ocorreram o ano passado).

A ICANN tem pendente a aprovação de várias centenas de novos domínios. Entre esses domínios está, por exemplo, o sufixo .xxx, dedicado a sites pornográficos, que está em debate há sete anos. Outra extensão polêmica é .gay, objeto de discordância de alguns países.

Por detrás do desejo de Obama de mudar algumas orientações da ICANN, no entanto, há um pano de fundo cujas tramas são bem mais complexas. Há muito tempo, países como Índia e China tentam tirar da ICANN a administração da internet mundial e cedê-la para uma entidade da ONU. Dessa forma, ficaria anulada a influência dos Estados Unidos sobre a ICANN. Esse poder dos Estados Unidos vem desde o início da internet acadêmica, quando o país administrava a incipiente rede mundial. Mas, essa proposta pode entrar em conflito com a internet atual, já que justamente países como a China (e Irã, Egito e outros) praticam a censura sistemática da rede mundial.

Espera-se que até abril a ICANN libere novos sufixos para a internet, cujas extensões .com e .net respondem por mais da metade dos 202 milhões de endereços mundiais atuais. Uma nova extensão custará US$ 185 mil. Hoje, a internet tem 21 extensões. Mas, com as mudanças propostas para abril, poderá haver novidades como .paris, .compras e outros sufixos mais complexos.

IPv4

Na semana passada, a ICANN comunicou que os endereços IPv4 disponíveis para órgãos regionais se esgotou. O IPv4 designa números IP (Internet Protocol), que são os endereços que permitem aos usuários mundiais se conectarem à internet. A partir de agora, os novos registros de números IP deverão ser feito apenas na nova versão, o IPv6.

Para o Brasil, prevê-se que os estoques de IPv4 durem até 2012. Mas, os órgãos brasileiros responsáveis pela administração da internet recomendam a adoção, desde já, de números IPv6. O IPv4 suportou 4 bilhões de endereços IP e o IPv6 pode chegar, hipoteticamente, a 340 decilhões (combinação do número 34 seguido de 37 zeros) de endereços.