Como parte das comemorações do nonagésimo aniversário, jornal disponibiliza na web seu conteúdo desde 1921
Reprodução Primeira edição do jornal, ainda com o nome de Folha da Noite, que circulou no dia 19 de Fevereiro de 1921
A Folha de S. Paulo marca seu aniversário de 90 anos, completados no último sábado, 19, com uma celebração ecumênica reunindo diversas religiões, com coquetel e concerto, na Sala São Paulo. Uma comemoração sofisticada e discreta. Conforme conta o presidente da empresa Folha da Manhã S.A e também principal executivo do Grupo Folha, Luiz Frias, chega agora um presente aos leitores, já que a Folha disponibiliza seu acervo online, com a totalidade de todo o conteúdo publicado desde 1921, e finalmente digitalizado (veja aqui). De acordo com reportagem publicada na própria Folha nesta segunda-feira 21, somente no sábado, o acervo digital teve um pico de acessos de 25 mil usuários por hora.
No sábado 19, a edição comemorativa contou com um caderno especial, com quatro capas diferentes - casa assinante recebia um modelo, aleatoriamente. Como recheio, o jornal fez um amplo resgate de sua trajetória, com retrospectivas e principais fatos que marcaram sua mudança e evolução na cobertura dos fatos do Brasil e do mundo nas últimas nove décadas. Como "presente", os internautas terão, por um mês, acesso gratuito a todas as edições do jornal. Um livro com as capas que fizeram história também está nos planos do veículo.
Confira a entrevista concedida por Luiz Frias ao Meio & Mensagem, no qual ele fala do aniversário do jornal, contextualiza o atual momento econômico da mídia impressa e revela como a Folha, após 90 anos, está aprendendo a se adequar à era das mídias digitais.
Meio & Mensagem - A Folha chega aos 90 anos. Você já está nela há 30 anos, sendo nos últimos 20 como presidente. Uma data importante para um grande jornal, dentro do terceiro maior grupo de mídia do País...
Luiz Frias - Estamos na verdade disputando o segundo lugar com a Abril; o Grupo Folha em 2010 teve um faturamento bruto de R$ 2,7 bilhões e um EBITDA de aproximadamente R$ 600 milhões; nós viemos crescendo nos últimos cinco anos a uma taxa de 13% ao ano e nos últimos dez, crescemos a uma taxa de 14,5 % ao ano. Esses números também consolidam a aquisição do UOL no ano passado de uma companhia de data center chamada Divio, uma operação que foi pública, em torno de R$ 700 milhões. Esses números incluem a Folha da Manhã, o UOL com as companhias adquiridas nos últimos dois anos; o Valor, que é meio a meio com as organizações Globo; e a Plural, que é uma gráfica controlada pelo grupo Folha e que tem com parceiro a Quad Graphics. Os números consolidam as quatro operações.
M&M - E o UOL começa o ano com novo sócio (empresa de José Alves de Queiroz Filho, o Junior, dono da Hypermarcas).
Frias - Sim, adquiriu 25%, e o restante está no mercado.
M&M - Em 2010, a Folha fez uma grande mudança editorial e gráfica, cuja campanha tinha como mote “O Jornal do Futuro”. O que vocês preparam para este nonagésimo aniversário?
Frias - Sobre a celebração dos 90 anos, vamos disponibilizar o acervo integral do jornal desde 1921. Então, será possível fazer consulta via internet de qualquer edição que a Folha já tenha publicado. Conseguimos com muito esforço conciliar o final da digitalização com a data de fevereiro. Será o mais emblemático da celebração. Num primeiro momento, esse acervo estará aberto pra qualquer internauta; depois, vamos restringi-lo aos assinantes do jornal.
M&M - Esse projeto de digitalização parece se relacionar com todo o trabalho feito nas novas plataformas. Quais os planos do jornal para esses dispositivos, e quando que vocês começam a cobrar pelos conteúdos neles?
Frias - A Folha já disponibiliza todo seu conteúdo, além do papel e do site, em vários outros formatos digitais. Tem um aplicativo especial no Facebook para acompanhar as notícias em tempo real e a página nessa rede social já tem mais de cem mil seguidores, e vem crescendo a uma média de dois mil novos fãs por dia; é a página de notícia no Facebook com maior número de seguidores hoje. No Twitter, é também o principal canal de notícias com mais de 70 mil seguidores. O aplicativo da Folha para o iPad já foi baixado por mais de 60 mil pessoas. No iPhone, são mais de 70 mil downloads. Há também os aplicativos para o sistema Android. Todas essas são iniciativas ainda gratuitas, como você mencionou, mas certamente o modelo de negócio será baseado em cobrança pelo conteúdo.
M&M - No fechamento dos dados do IVC de 2010, depois de 24 anos de liderança de circulação, a Folha acabou ultrapassada, ainda que por uma margem mínima, na sua média diária pelo Supernotícias - título mineiro popular que não é seu concorrente direto. Essa perda de circulação significa ou não perda de leitores?
Frias - Em novembro e dezembro, voltamos a assumir a liderança diária. Esse jornal nem está em nosso radar porque é vendido ao preço de R 0,25, um décimo do nosso preço; é um tablóide, um jornal popular e nós não vemos como competidor, seja em termos de prestígio, seja em termos publicitários. Em relação aos jornais de prestígio, a liderança continua: na média de circulação paga de 2010, a Folha ficou 12% acima do Globo e 25% acima do Estado; o Agora (segundo jornal da empresa Folha da Manhã, mais popular) segue com uma liderança bastante confortável no seu segmento de atuação: a circulação do Agora foi maior que a soma dos seus dois principais concorrentes, o Diário de São Paulo e o Jornal da Tarde, com uma média acima de 93 mil exemplares/dia. É bom lembrar também que o IVC continua uma referência fundamental para o mercado publicitário, mas deixou de ser a única. Até porque hoje você pode acessar os conteúdos da Folha em outras plataformas, como a digital. Só pra mencionar o número da Folha.com, ela teve uma audiência de 2,3 milhões de visitantes únicos domiciliares por mês, e segue sendo o site noticioso com o maior número de leitores do País.
M&M - Mas aí é com conteúdo aberto...
Frias - Sim, conteúdo aberto; então, a gente também tem que relativizar essa questão de você poder acessar o conteúdo do jornal não mais exclusivamente através da versão impressa.
M&M - Você mencionou o Agora, um título com venda majoritariamente em banca. Qual a relação entre venda de assinatura e venda em banca da Folha?
Frias - Esmagadoramente assinantes, em torno de 90%.
M&M - Há algum plano especial pra essa circulação impressa?
Frias - Desenvolvemos muitos produtos de circulação nos últimos 15 anos, que muitas vezes foram até chamados de anabolizantes, um expediente que outras publicações têm usado, a exemplo desse jornal de Minas Gerais; além, obviamente do preço de R$ 0,25. Mas nós achamos que, com a entrada do conteúdo no formato digital, só estamos fazendo produtos de circulação que realmente agreguem algum tipo de valor para o leitor.
M&M - É o caso da coleção atual, de ópera?
Frias - Com a coleção atual, o objetivo não é mais aumentar a circulação paga, como foi na época do Atlas, um momento ali histórico por ter chegado a 1,5 milhão de exemplares. São dias passados e nossos produtos de circulação hoje não têm mais o objetivo de aumentar a circulação paga de jornal.
M&M - E os demais produtos como, por exemplo, os do Publifolha. Como que vocês tratam?
Frias - São unidades de negócio; empresas independentes. Além do Publifolha, tem o DataFolha, a TransFolha que é hoje uma distribuidora importante no Estado de São Paulo, não só pra produtos jornalísticos mas também para e-commerce, produtos de alto valor e pequeno peso.
M&M - E a parceria com o Estadão na empresa de distribuição?
Frias - É a SPDL, parceria com o grupo Estado, meio a meio, que é extremamente bem-sucedida na minha avaliação para as duas companhias. Ambas ficaram muito mais eficientes e reduziram custos dramaticamente ao longo dos anos 90 e isso se deve exclusivamente à SPDL, que está consolidada, que opera e que entrega os dois jornais.
M&M - Há um movimento dos grupos nacionais de mídia de ingressarem na área de educação. A Folha tem algum projeto para a área educativa?
Frias - Achamos que é um setor próximo ao de mídia, e existe a experiência emblemática do Washington Post, cuja operação hoje em educação da companhia é até maior que a operação do jornal. Achamos a educação um setor promissor. Acho que o grande divisor de águas do setor de educação no Brasil foi o Plano Real, em 1994, e a partir daí uma transformação brutal que ocorreu no ensino superior, e a proliferação de escolas, a profusão enorme de estudantes e etc. Nossa avaliação é que, por mais que a gente acompanhe o setor, ele atingiu um estágio mais maduro, ou seja, as companhias já fizeram um papel de consolidação, os IPOs foram feitos na segunda metade da década passada e após isso já houve um esforço de consolidação para aqueles três ou quatro grupos que o fizeram. Mais recentemente apareceram sistemas de ensino - foi nesse nicho que a Abril entrou -, que é uma outra janela, uma outra oportunidade. Mas no momento não temos nenhum plano maior para entrar no setor de educação no exemplo que o Grupo Abril fez.
M&M – Como vocês vêm o mercado de publicidade? A Folha está mais para o modelo europeu – com receita de assinatura maior – ou o modelo americano, onde prevalece a receita publicitária?
Frias - Eu diria que mais ou menos no meio termo. Há alguns jornais americanos cujo percentual da receita total advindo de circulação é muitas vezes menor do que 30%; algumas vezes até menor do que 20%. Mas também não é uma estrutura de receita como alguns tablóides, alguns jornais populares que dependem basicamente de circulação, aonde a circulação chega a ser mais do que 50% do total da receita. A Folha fica mais ou menos no meio do caminho. Continuamos muito otimistas com o futuro da publicidade brasileira, acho que a publicidade brasileira é reconhecida internacionalmente há mais de 40 anos, acho que é mérito das três partes - agências, anunciantes e veículos -, que conseguiram construir uma indústria de comunicação sofisticada, grande, importante em termos absolutos como é a indústria brasileira. Não é por outra razão que a publicidade brasileira tem o reconhecimento que tem há décadas, não é por outra razão que a indústria da comunicação no Brasil tem veículos com a Rede Globo, a revista Veja, Folha, Estado, o próprio jornal Globo, RBS. Onde acho que deverá ocorrer alguma modificação mais profunda é realmente em relação à internet, cujo share vem crescendo ano após ano, mas ainda é um percentual bastante pequeno se você comparar com alguns mercados como Reino Unido.
M&M - Como a Folha acredita na migração da publicidade do jornal no papel para o jornal na Internet?
Frias - Se um dia os jornais conseguirem manter a sua audiência ou talvez até aumentá-la um pouco mais, a publicidade deve ter um aumento em termos absolutos. Se os jornais conseguirem manter ou aumentar a sua audiência e continuarem conseguindo desempenhar o papel de formador de opinião, continuarem a atingir as pessoas que fazem a diferença, acho que isso é o grande diferencial dos jornais impressos. Não vejo por que a publicidade não vá acompanhar. Ou seja, o anunciante continua atrás da audiência. Para usar uma linguagem mais de Internet, eles estão atrás dos eye balls, então aonde tiverem os olhos do consumidor, e a publicidade vai seguir. É uma máxima que a Internet não mudou e não mudará.
M&M - Motores da publicidade no jornal impresso, como o varejo de automóveis e o mercado imobiliário, também irão com uma maior força para a plataforma digital?
Frias - Acredito que sim. Aqueles anunciantes que estão medindo o retorno mais sob o motivo de venda e menos com motivo institucional, talvez tenham movimentos mais lentos. Mas acho que no sentido geral a coisa não muda; os anunciantes estarão onde estiver a audiência qualificada, com capacidade de compra, com poder de compra. Acho que daí o anunciante tende a ser mais agnóstico com relação à plataforma; o que ele quer são as pessoas certas para verem a mensagem dele e adquirirem seus produtos.
M&M - Nesse contexto, como fica o segmento dos classificados, e quão importante ele é hoje e nesse novo ambiente? Pode desaparecer?
Frias - Pois é; é uma coisa que a gente vem debatendo há muitos anos, talvez há mais de dez anos que essa pergunta vem sendo feita e sempre há uma expectativa de que vai diminuir, de que vai desaparecer e não é o que tem acontecido. Quando você vê empreendimentos de compra e venda na Internet, eles acabaram sendo mais bem-sucedidos nos chamados produtos típicos de e-commerce e não nos carros-chefe dos classificados impressos que são: imóveis, automóveis e empregos (de uma maneira mais reduzida). Fora a miscelânea, além desses três segmentos. Então, o que deu certo na Internet não foi o imóvel, e também não foi o automóvel; foi uma coisa menor, mais diminuta. O que realmente deu certo foi aquele que focou nos produtos eletrônicos, típicos de e commerce, de alto valor e de baixo peso.
M&M - Essas iniciativas, portanto, ainda sustentam o papel?
Frias - Elas ainda sustentam o papel. Só pra te dar mais um número, por exemplo, para mostrar o vigor exclusivo do jornal, a empresa Folha da Manhã isolada, que é uma das quatro que eu te falei, em 2010 cresceu 14% em receita líquida; então, isso ainda mostra o vigor da companhia e a capacidade de ela se reinventar e conseguir diversificar o seu portfólio de receitas.
M&M - Então, você pode aposta que no centenário da Folha ela estará “gordinha” no papel, com classificados e tudo o mais?
Frias - Acho que vai haver um aumento da importância das versões e formatos digitais em detrimento da versão impressa. Mas o fim da versão impressa demora a acontecer, pois tem muitas pessoas que a preferem, que acham mais cômodo ler um livro em papel, menos cansativo, menos agressivo para a visão do que em uma tela touch screen de um iPad, por exemplo.
M&M - Na semana passada, você e o seu irmão (Otávio Frias Filho, diretor de Redação da Folha) estiveram em Brasília, num encontro a convite da presidente Dilma Roussef. O governo - reunindo os investimentos da administração direta e indireta – é o maior anunciantes do País. Qual o peso da publicidade governamental, seja verba municipal, estadual e também federal, nas receitas da Folha?
Frias - No caso do Grupo Folha, é insignificante...
M&M - Sobre essa política de pulverização por parte do governo federal das verbas de publicidade para um grande número de empresas – rádios, jornais, TVs. Vocês são prejudicados por esssa linha?
Frias - ... muitas vezes perdendo até um pouco o caráter técnico. Mas não significa nada para nós, porque a publicidade de governo no nosso caso é irrelevante. É 3,7 % na Folha; se pegar o número do conglomerado, daí é de 1,8%; coisa desprezível. A gráfica, por exemplo, não tem receita de publicidade.
M&M - Isso é importante para a independência editorial do jornal?
Frias - Não há dúvida, acho que isso é quase que uma constatação. Nos grandes veículos de mídia brasileiros, já conseguimos virar essa página, até porque a dependência em relação a verbas de governo nos grandes veículos é relativamente diminuta. Talvez na Folha seja menor ainda. Portanto, o governo realmente não é o carro-chefe da publicidade dos grandes veículos, o que eu acho muito bom, para poder preservar uma certa autonomia, uma certa distância, uma independência editorial.