Em entrevista ao Meio & Mensagem, candidato à Presidência nas eleições 2010 comenta sobre sua participação nas redes socias e opina sobre publicidade
Foto do político no Twitter: mais de 68 mil seguidores e comunicação direta com os internautas
Candidato à Presidência pelo PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, aos 80 anos, ganhou destaque nos últimos meses graças à sua irreverência e bom humor — chegando a conquistar o quarto lugar no primeiro turno das eleições. Conectado no dia a dia, ele sugere que Dilma Rousseff faça melhor uso das mídias sociais e ainda aponta suas considerações a respeito das questões éticas da publicidade.
Confira a entrevista concedida por ele, publicada na edição 1435 de Meio & Mensagem, que circula com data de 15 de Novembro de 2010.
“A presidente deveria reservar pelo menos uma hora por dia para as redes sociais”
Meio & Mensagem — Qual o papel da publicidade para a sociedade em sua opinião?
Plínio de Arruda Sampaio — Sem dúvida é preciso anunciar os produtos e os serviços que estão à venda. Isto é a publicidade. Portanto, eu não posso ser a favor nem contra, é uma realidade. Agora, sobre a publicidade no mundo capitalista, para mim ela exercita normalmente um papel perverso, porque cria necessidades falsas.
M&M — E a relação de políticos com a publicidade? O senhor acha que pode ser maléfica?
Sampaio — Olha, eu não uso marqueteiro. Não gosto. Tenho um assessor que entende muito de publicidade e que me dá conselhos para as minhas apresentações e para o material de campanha sem, contudo, interferir no conteúdo do que eu quero dizer. Nestas eleições nós tivemos o caso da relação da Dilma com o Duda Mendonça. Só que o problema é que o Duda cria um boneco. O candidato vira um sabonete, e isto é realmente um engodo.
M&M — E em relação às campanhas presidenciais deste ano? Como o senhor acha que a publicidade foi usada nelas?
Sampaio — Eu acho que foi muito ruim. Primeiro porque ela escondeu a verdadeira personalidade dos outros três candidatos e, em segundo lugar, usou recursos publicitários para baixar o nível do debate.
M&M — O senhor ganhou destaque na última eleição principalmente nas redes sociais, fazendo bom uso delas. Qual o papel desta mídia no pleito?
Sampaio — Hoje eu estava vendo que estou com 68 mil seguidores. Quando entro para twittar, em meia hora tenho mais 100 pessoas (veja o perfil dele no Twitter aqui). É impressionante a importância do Twitter. Claro que ele pode ser usado pela publicidade, e creio até que, com o tempo, vai substituir a TV. Mas a principal vantagem desta rede é que ela deixa a relação mais transparente, porque não tem nenhum filtro entre a comunicação de alguém e a resposta que ele recebe. Está isolado de qualquer contato. É ele e só. A resposta é muito espontânea, muito real. E isto é uma grande vantagem quando se trata de comunicação com figuras importantes para a sociedade.
M&M — Em sua opinião, como a presidente eleita, Dilma Rousseff, deveria utilizar essas ferramentas de maneira mais proveitosa?
Sampaio — Para mim, ela deveria reservar uma hora do dia, estabelecida, para estar presente na rede e twittar pessoalmente. No meu caso, é assim que faço. Eu pessoalmente twitto. Claro que nem sempre posso estar lá, e aí peço para a minha assessora twittar por mim, mas sempre explicando que não sou eu e os motivos. No caso da Dilma, acho que ela deveria se empenhar em estar presente nestas redes, entrando em contato com aqueles que querem falar diretamente com o presidente.
M&M — Também sobre o novo governo, quais as mudanças que, em sua opinião, podemos esperar em relação à publicidade?
Sampaio — O governo da Dilma é uma incógnita, pois ninguém sabe o que essa senhora vai fazer. Isto porque o povo brasileiro escolheu uma desconhecida, o que é uma irresponsabilidade enorme. Sendo assim, não dá para saber quase nada de como vai ser daqui para frente.
M&M — O senhor é diretor do jornal eletrônico Correio da Cidadania, um veículo de mídia alternativa. Acredita que estes novos tipos de mídia ajudam também o jornalismo?
Sampaio — Ajudam e muito. Estou agora estudando — junto com uma equipe — uma forma de articular o Correio com o Twitter por meio da Twitcam. Estamos pensando seriamente nisto e investindo muito. A ideia é fazer uma espécie de jornal noticioso, como a Globo, mas claro que com as nossas limitações.
M&M — Como o senhor acha que este novo tipo de mídia pode ajudar a publicidade?
Sampaio — Bom, ela abre um novo espaço para a propaganda. Um espaço novo, enorme e inédito. É um campo aberto para a criatividade dos publicitários. Só depende deles.
M&M — Outra característica sua é o bom humor. O senhor usou e abusou dele durante a campanha. Em sua opinião, falta à publicidade um pouco desta descontração?
Sampaio — Olha, na publicidade eu não acho que falte, não. Inclusive, é uma das coisas que eu mais gosto. Considero a nossa publicidade muito competente. Quando vou para o exterior e vejo as mídias de lá, percebo que a nossa publicidade não só não fica atrás como, em muitos casos, é até mais competente. E uma das coisas boas da nossa publicidade é, principalmente, a capacidade de fazer graça. Acho isto fantástico.
M&M — Existe alguma campanha que tenha marcado? Alguma ação que o senhor tenha visto e gostado ultimamente?
Sampaio — Tem esta recente, de que ninguém conhece o filho como a sua mãe (campanha Susto, da Volkswagen, criada pela AlmapBBDO). Acho isso genial. Outro cara que acho “craquíssimo” é aquele do Bombril (o ator Carlos Moreno). Eu o considero o mais craque, é uma simpatia e tem uma gozação perfeita. E está aí há mais de 20 anos. Outras que eu gosto bastante são as campanhas da Brahma, acho que são bem-humoradas, benfeitas, sem grosserias.
M&M — E alguma de que não tenha gostado?
Sampaio — Aquela tal de cerveja Devassa (campanha estrelada pela socialite Paris Hilton, criada pela agência Mood). Achei-a muito grosseira, muito bobinha. Não gostei.
M&M — O senhor, como figura pública, emprestaria sua imagem para algum tipo de campanha?
Sampaio — Para campanhas filantrópicas, sim, mas não associaria minha imagem a nenhuma marca.
M&M — Já participou de alguma campanha publicitária?
Sampaio — Não, mas isto também porque nunca me pediram. Se tivessem pedido, eu iria com o maior prazer. Mas, repito, somente para campanhas filantrópicas.
M&M — Quais considerações o senhor faria a respeito do atual momento da publicidade no Brasil?
Sampaio — Não tenho muitas sugestões porque não sou especialista. A consideração que faria é o crescimento da deontologia (teoria filosófica ligada à moral e à ética), em relação ao problema ético da publicidade. Eu gostaria que os publicitários tivessem algum tipo de conselho ético, algo que limitasse e dissesse “este tipo de publicidade não”. Esse que induz uma criança, por exemplo, a exigir do pai. É uma pressão injusta. Acho que aí sim esta consideração eu faria. Do ponto de vista ético mesmo. Do ponto de vista técnico eu não tenho muito o que dizer, não entendo mesmo (risos).