Atividades desenvolvidas por corporações e ações inspiradas em estratégias do mundo dos negócios mostram que o envolvimento das companhias é cada vez mais importante.
O sexto encontro anual da Clinton Global Initiative (CGI), que acontece até esta quinta-feira, 23, em Nova York, destaca, em vários painéis, a importância do envolvimento das empresas em projetos que assegurem um futuro melhor para os países e as populações. Uma das quatro áreas de ação implantadas para a edição 2010 procura justamente fortalecer esse envolvimento e também estimular a busca por soluções, inclusive por ONGs e governos, que tenham um viés de negócios e que surjam das necessidades dos mercados.
Na sessão plenária do segundo dia do fórum, os organizadores reuniram no palco Robert Diamond (presidente do banco Barclays), Fadi Ghandour (CEO da companhia internacional Aramex), Iqbal Quadir (diretor do Centro Legatum de Desenvolvimento e Empreendedorismo e professor do MIT), Leila Janah (CEO da entidade Samasource), e Valerie Jarret, sênior advisor do presidente Barack Obama para relações intergovernamentais e engajamento público. O debate foi moderado pelo jornalista Thomas Friedman, do jornal The New York Times.
Friedman abriu a sessão comentando que estamos no meio de uma transição. Tempos atrás, havia uma falta de equilíbrio entre o que o líder planejava para as pessoas e as necessidades que eram emanadas das bases. Em outras palavras, não havia plena sintonia entre a liderança e o que os indivíduos realmente queriam. Hoje, as necessidades são mais e mais manifestadas. E para atender esses desejos muitas ações são tocadas pelas próprias pessoas. É chegada, assim, a hora de haver esse equilíbrio entre o que pensam as lideranças e o que anseiam as pessoas.
O colunista do New York Times também argumentou que os programas sociais desenvolvidos tanto pelas empresas, quanto pelos governos e entidades deveriam levar em conta dois fatores cruciais: que eles sejam em escala e que sejam autossustentáveis. “Se o programa não for em escala, então, não é um programa. É um hobby”, comentou.
Um dos primeiros a compartilhar sua experiência foi Iqbal Quadir, que criou um serviço de telefonia celular desenvolvido para as populações pobres de Bangladesh com o apoio do Grameen Bank. Ele reforçou as palavras de Friedman sobre a produção em escala. “Os projetos devem ser em escala. Temos dois bilhões de pessoas vivendo com dois dólares por dia”, acrescentou.
Quadir afirmou que é essencial também enxergar essa população não apenas como mero consumidores, e sim como produtores. Segundo ele, se forem criadas condições para que os negócios tocados por esses pessoas sejam 1% mais produtivo, serão gerados mais US$ 1 milhão. “O negócio dos celulares é um exemplo. Eles impulsionaram as atividades de diversas pessoas”, contou.
Leila Janah fez coro à análise de Quadir. “É importante ver as pessoas das regiões em desenvolvimento como gente que produz. Há jovens que conseguiram completar sua educação, mas que não encontram emprego. Eles não conseguem utilizar as capacidades desenvolvidas. O mundo digital pode abrir perspectivas e essas pessoas podem se tornar produtoras”, disse. Sua organização, a Samasource, ajuda 850 pessoas consideradas refugiadas em seis países (Uganda, Quênia, Camarões, Gana, Paquistão e Haiti).
A proposta é oferecer oportunidades de trabalho pelos meios digitais. Um exemplo foi o que fizeram no Haiti, no período de resgate e atendimento de pessoas após o terremoto. Foram contratadas pessoas que falavam creole e inglês para traduzir mensagens da população que chegavam por celular ao auxílio humanitário vindo de países como Estados Unidos.
Ghandour observou que as empresas que partirem para projetos sociais ou investimentos em programas para comunidades devem ajustar suas mentes para outra ideia de lucro. “Esse é um ponto crítico. As companhias devem deixar de pensar em retornos trimestrais. Esses investimentos são de longo prazo. Que retorno se espera de um aporte em um programa educacional? Temos de pensar em retorno social, que pode ser recompensado no futuro. Temos de ter a certeza de que não se trata somente de números”.
Diamond contribuiu para o debate dizendo que as empresas podem destinar um percentual de seus lucros para projetos de responsabilidade social, como faz o Barclays. Ele ressaltou que, além disso, é importante engajar equipes e funcionários nos projetos abraçados pela corporação. E acrescentou: “como em qualquer negócio, sabemos que para ter sucesso é preciso se arriscar. Investimentos feitos nessa área são de longo prazo”, acrescentou. Diamond, como outros participantes do encontro, enalteceu os esforços que unem as três pontas: governo, setor privado e sociedade civil. “É muito importante ter o engajamento das empresas privadas com projetos do governo. Afinal, nós temos interesses comuns, que são a oferta de empregos e o crescimento econômico”, afirmou.