quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Microfinanças na mira

Um modelo social ou comercial de financiar o sonho das pessoas. Esse foi o cerne do debate no encontro da CGI em torno dos serviços que surgiram a partir da experiência de Muhammad Yunys, o criador do microcrédito

Um painel disputado dentro das opções do encontro da Clinton Global Initiative (CGI) foi “Profiting from the poor? A discussion on microfinance IPOs”, que teve como participantes Muhammad Yunus, fundador e diretor do Grameen Bank, de Bangladesh, e o indiano Vikram Akula, criador e mentor da SKS Microfinance. Yunus é ganhador do Nobel da Paz de 2006 pelo seu modelo de microcrédito, estabelecido em 1976. Akula foi estudante do economista bengali.


Hoje, porém, os dois se encontram em lados opostos. Aliás, no próprio painel, eles estavam separados pela presença de Mary Ellen Iskenderian, CEO do Women’s World Banking, uma rede de microfinanças (cerca de 40 institutos espalhados pelo planeta).

Para começar, Yunus prefere usar o termo “microcrédito”, mas não faz questão que os demais se sintam obrigados a repeti-lo. Ele disse que, mais importante que a palavra utilizada, é o conceito de ajudar as pessoas mais necessitadas a ter dinheiro para tocar seus projetos. Em todo debate, no entanto, ficou clara a real divisão entre o trabalho desenvolvido por Yunus e o de Akula – para ficar em apenas dois modelos, já que outros existem pelo mundo.

Yunus explicou que seu conceito se refere a emprestar dinheiro a mulheres pobres que tenham atividades geradoras de capital de modo a elevar seu status econômico. “No fundo, você empresta dinheiro a consumidores. Determine o nome que quiser a seu modelo, mas essa é a questão”. Ele salientou que esse serviço é oferecido por um banco, que segue normas regulatórias. E frisou: “Apenas 5% do Grameen pertencem ao governo, os demais 95% são das pessoas que emprestam às outras pessoas”. Esse é um modelo social de microcrédito. “É o nosso objetivo. Não sou dono de nenhuma ação do banco”.


Akula, cuja empresa recentemente abriu capital, defende um modelo comercial. Seu negócio, a SKS, financia projetos para os mais pobres (não é um banco). Em 2009 movimentou cerca de US$ 5 bilhões em microcréditos. Ao entrar na bolsa, acredita-se que a companhia receberá uma injeção de US$ 250 milhões de investidores, especialmente internacionais. Desse modo, pretende expandir seus serviços. “Acho injusto que uma mulher pobre não tenha as mesmas oportunidades que outra. Os serviços de microfinanças têm de ampliar sua capacidade de atender a população”, sustentou. Desse modo, ele acredita que crescerão as possibilidades de inclusão financeira das camadas mais populares.


No debate, Yunus afirmou com muita veemência que é um engano pensar que seu modelo não visa o lucro, como alguns já deram a entender. “Somos um banco. E como instituição financeira pensamos no lucro e desejamos que as pessoas lucrem. Mas o princípio do Grameen é que esse capital vá para as pessoas que sustentam esse modelo”, destacou.

Sua crítica em relação ao formato comercial da SKS é que o dinheiro vindo de fontes estrangeiras passa a ser regulado pelos humores internacionais. O que não acontece quando o microcrédito é local. Além disso, ele crê que as empresas que adotam um modelo comercial com investidores internacionais vão tender a agradar os interesses desses investidores. Daí porque Yunus defende como melhor solução para a oferta de microcrédito a criação de um banco.


Akula ponderou que a situação que levou ao surgimento do Grameen, com apoio do governo de Bangladesh, foi única. Ele declarou que montar uma estrutura financeira que dê crédito às populações pobres demanda um alto investimento, o que foi corroborado por Mary Allen.