quarta-feira, 15 de setembro de 2010

As tensas fronteiras entre editorial e comercial

O IV Fórum ANER mostra um mercado mais propenso a aproximar os dois lados da revista, mas desde que os objetivos de cada um não sejam prejudicados

A discussão não é nova e nem acabará nesta edição 2010 do Fórum ANER, realizado nesta terça-feira, 14. Na realidade, como bem apontou um dos participantes, os próximos 10 fóruns da Associação Nacional de Editores de Revistas seguirão dissertando sobre os limites entre o editorial e o comercial dentro de revistas. Os dois setores tem objetivos tão distintos que são chamados há algum tempo de Igreja e Estado. Mas ao mesmo tempo fica claro que, ao menos no discurso, e em alguns cases que começam a brotar, os dois lados estão conseguindo aparar algumas arestas e sem desviar do protagonismo de seus papeis.

“Eu acho que essa fronteira está cada vez mais definida. O leitor não é bobo, ele percebe o que é merchandising e o que não é. Acho que inclusive deve haver uma aproximação entre os dois lados. Algumas soluções recentes nasceram na própria redação. Os dois precisam estar juntos para correrem atrás dos seus objetivos diferentes, que são vender, no caso do comercial, e manter a credibilidade, no caso da equipe editorial”, afirmou José Bello, diretor de publicidade da Editora Três.

“Cada caso deve ser analisado individualmente para que não se estrague a criatividade no uso da mídia e, por outro lado, ao confundir conteúdo editorial e propaganda”, concorda Nelson Blecher, Diretor de redação Época Negócios.

Na mesma toada, o diretor de conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, afirma que a integração entre os dois departamentos deve colocar os interesses do leitor em primeiro plano. “Eles são os patrocinadores da imprensa livre. Mais do que antes, eles são os reis”, afirmou.

A pitada de pimenta do debate foi trazida por Edgardo Martolio, CEO Editora Caras. “Eles são os reis, ma se pegarmos as contas, os leitores não pagam tudo. Precisamos analisar caso a caso, de acordo com o tipo de publicação”, provoca Martolio. “O que é pior no final das contas? Você publicar um anúncio publicitário de cigarro, que notadamente faz mal à saúde, ou um merchandising, como já fizemos, apregoando o uso de filtro solar, induzindo o leitor a usá-lo?”, questionou.

O executivo deixou claro que qualquer inserção publicitária deve ficar clara para o leitor. Mas ele reiterou que a realidade de mercado pode dar espaço à publicidade sim, desde que respeitando essa premissa. “Uma coisa é o discurso, outra é o mundo real. Precisamos pagar as contas”, completou.

A fala acabou repercutindo na palestra de Roberto Civita, algumas horas depois. "Defendemos a separação entre publicidade e jornalismo", afirmou.

Um dos temas polêmicos do painel foi o chamado publieditorial, os informes publicitários inseridos nas revistas. Alguns dos participantes do painel disseram que o leitor sequer saber o que é um publieditorial. “Fica difícil de saber onde está o lado editorial e onde está a publicidade, aponta Blecher.

De qualquer maneira, uma das últimas questões deu à tona para novos temas que poderão ser discutidos nas próximas edições do fórum da Aner e de outros centros de discussão: “Será que a ética não é o caminho mais seguro em direção ao próprio lucro do veículo?”, pontuou o moderador do debate Eugênio Bucci, professor da ECA/USP. Infelizmente o tempo foi curto para discutir-se com profundidade este e outros sub-temas.