Acordo com organizações que investigam informações é um caminho que pode enriquecer o conteúdo dos jornais, como aconteceu no episódio Wikileaks.
O Wikileaks atraiu a atenção da grande imprensa, lá fora e no Brasil. O teor da informação fornecida pelo site - uma reunião de mais de 90 mil arquivos sigilosos sobre a atuação dos Estados Unidos no Afeganistão - já era, por si, bombástico (entre as revelações, estão casos de civis mortos por aviões teleguiados). Não foi apenas a exposição desses dados na web que causou furor, especialmente na Casa Branca. Na verdade, as notícias ganharam dimensão internacional porque o Wikileaks teve o apoio de três importantes veículos: The New York Times, The Guardian e Der Spiegel. Tamanha repercussão irritou o governo norte-americano, tornando ainda mais difícil qualquer hipotético plano de viagem aos EUA por parte do fundador do site, o australiano Julian Assange. Ele teme rumar para o país porque suspeita, com boa dose de razão, que o prenderiam assim que chegasse.
Polêmica à parte, o que o episódio em questão aponta para o mundo da comunicação? Uma análise, que já vem sendo feita por especialistas da área, é que rende valiosos pontos a um veículo contar com parceiros que possam abastecê-los de dados de interesse público nestes tempos em que a relevância do conteúdo é cada vez maior e que a demanda por transparência atinge níveis como nunca antes imaginado. Assange declarou ao Guardian, logo após a publicação no jornal inglês dos dados sobre o Afeganistão, que esta é a era das denúncias, um tempo em que mais e mais pessoas encontram informações que julgam que deveriam ser compartilhadas e conhecidas.
"É verdade o que Assange disse. Basta ver o que acontece com as redes sociais. As pessoas colocam uma notícia e logo muitas outras replicam o que foi postado. Se é uma denúncia ou uma crítica, o impulso de informar isso é ainda maior", afirma Fabiano Angélico, coordenador de projetos da Transparência Brasil, organização independente que atua há dez anos na busca e análise de dados que ajudem a combater a corrupção.
Em um cenário desses, fica ainda mais patente a necessidade de disponibilizar conteúdo acurado e que responda aos anseios da população por mais transparência. Como dar conta disso? "As empresas jornalísticas hoje não têm tantos braços ou meios de montar grandes equipes investigativas. Buscar parcerias é um caminho. Mas o verbo, nesse caso, é complementar. A gente não deve acreditar que iniciativas desse tipo vão substituir o jornalismo", diz Angélico.
Pedro Dória, editor-chefe de conteúdos digitais do Grupo Estado, concorda. "Há uma expressão em inglês: ‘transparency is the new black'. O público mais informado exige maior transparência de todas as indústrias. O bom jornalismo investigativo começa com um documento na mão, mas não para por aí. A partir dos dados num documento, há muita apuração, checagem, novas linhas de investigação e por aí vai. Wikileaks pode ser um aliado, mas não substitui (o jornalismo investigativo)".
Como observa Dória, o acesso a meios de publicar e receber informação ficou mais fácil. "Isso está mudando a maneira como o mundo funciona. Quando mudamos nossos hábitos de colher informação, a sociedade se transforma", comenta. "Mas isso é algo com o que todos já estamos convivendo há algum tempo, não é?", completa.
Parceria
O Transparência Brasil planeja parcerias com algum veículo de comunicação - recentemente, tiveram uma com o portal iG. Mas a organização ainda não encontrou o modelo ideal. "Estudamos formas de rentabilizar o que fazemos. Temos projetos com foco fixo", conta Angélico.
Ao contrário do Wikileaks, o site lida apenas com dados públicos, embora já tenha recebido denúncias. Isso é uma missão de grande valor, na visão de Angélico. Segundo ele, há um movimento crescendo na imprensa, que o jornalismo de base de dado. "Informação declaratória ou superficial qualquer pessoa pode fazer. Quando você começa a trabalhar com números, com dados brutos, aí são poucos que podem fazer isso porque ou falta capacidade técnica ou porque falta paciência", explica.
Mas Angélico não desmerece a atividade de um Wikileaks. Para ele, existe um potencial de informação na mão de pessoas que desejam liberá-las. "Quem conseguir atender essa demanda, desde que seja de modo crível e com checagem, tem um nicho a explorar".
Outro serviço que desponta na internet como provedor de conteúdo analítico é o Contas Abertas, que surgiu em 2005. Em seu site, a entidade avisa que tem a missão de "oferecer permanentemente subsídio para o desenvolvimento, aprimoramento, fiscalização, acompanhamento e divulgação das execuções orçamentária, financeira e contábil da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, de forma a assegurar o uso ético e transparente dos recursos públicos".
Dono de um prêmio Esso (de 2007, por contribuição à imprensa), o Contas Abertas credita a parcerias com veículos a conquista do troféu. Atualmente, a entidade, que tem 18 profissionais, tem acordo com o UOL para produção de uma nota por dia, mas ela pode fornecer análise de números e dados para qualquer jornal, revista ou emissora. Seu fundador, o economista Gil Castello Branco, diz que o vínculo com um veículo de expressão facilita o trabalho deles. "Às vezes, algum ministério demora em nos dar uma resposta. Mas, ao acionarmos o veículo, falando do que estamos procurando, então ele procura também o ministério e a resposta vem", conta.
Para Castello Branco, o episódio envolvendo o Wikileaks aponta em duas direções. "De um lado, as ferramentas para buscar informações estão crescendo na mesma velocidade que o digital. Hoje podemos acessar pela internet o que a presidência comprou ontem. Exemplos assim nos mostram quanto mudou o conceito de transparência. No exterior, o acesso à informação é considerado um direito essencial". O outro ponto é que o jornalismo igualmente sofreu transformações. "Antes, quem tinha acesso a esse tipo de dados era um jornalista velho, que tinha conquistado fontes ao longo dos anos. Agora é diferente. As fontes estão na web. Normalmente quem tem mais habilidade para encontrá-las são os mais jovens", afirma.
Sobre o teor dos dados e os limites de divulgação, Castello Branco pondera que seu patrão é a sociedade. "Sempre encaro nessas horas o dilema de divulgar ou não. Mas sigo minha bússola. Se a informação é de interesse público, divulgo." Ele diz que, se estivessem no lugar do Wikileaks, teriam feito o mesmo. "É um tipo de informação que pode abreviar uma guerra ou provocar uma reflexão para uma próxima ação militar. A informação merecia ser divulgada. Tinha importância mundial e não podia ficar escondida", emenda.
O Contas Abertas vive de suas parcerias e de cursos que ministra. Entre eles, está o de análise de fiscalização de gastos públicos. Esses dados, embora acessíveis pela internet, exigem um saber para que possam ser interpretados e até localizados. "Esse é um trabalho em que o jornalismo está cada vez mais interessado", arremata.